Sindicato dos Delegados de Polícia do Paraná

Respeito a quem merece

17 mai 2012 – 06:48

por Célio Heitor Guimarães

O senador Cristovam Buarque é um agente político de pouca presença na mídia nacional. Costuma usar a tribuna do Senado às segundas-feiras e discursar para um plenário às moscas. Além disso, tem uma ideia-fixa: a educação. Pernambucano de nascimento, fez carreira no Distrito Federal, onde foi governador, reitor da UnB e ministro da Educação. Ficou no primeiro governo de Luiz Inácio até 2004, quando foi demitido por telefone. Como petista, teve a audácia de insurgir-se contra os mensaleiros de Zé Dirceu. Deixou o PT e foi para o PDT, mas fez questão de registrar: “Eu não sai do PT, foi o PT que saiu de mim”.

No ministério da Educação, Cristovam implementou o programa Bolsa-Escola, que assegura um salário mínimo a cada família carente que tenha todas as crianças, de 7 a 14 anos, na escola. Com isso, reduziu a evasão escolar de 10 para 0,4%. É dele, também, a Mala do Livro, constituída de caixas-estantes ou minibibliotecas com cerca de 150 volumes cada, instaladas em residências de Agentes Comunitários de Leitura, para o empréstimo de livros – didáticos, de apoio escolar e de literatura. Só por isso já mereceria o meu voto.

Nas eleições de 2006, votei em Cristovam Buarque para presidente (com o saudoso senador Jefferson Peres como vice). Talvez por ser também um idiota que coloca a educação no topo das necessidades nacionais. Sabíamos que não iríamos ganhar, mas não fizemos feio e aliviamos a alma. Cristovam ficou em quarto lugar, com mais 2,5 milhões de votos.

O que me leva, agora, a Cristovam Buarque é que, remexendo nos meus guardados, encontrei o registro de um fato histórico genial protagonizado pelo senador, quando ainda ocupava o ministério de Lula e visitava uma universidade nos EUA.

Durante um debate com estudantes, o ministro Buarque foi indagado sobre o que pensava sobre a internacionalização da Amazônia. Para complicar a coisa, o jovem inquisidor advertiu que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.

A resposta do nosso Cristovam foi a seguinte:

– De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que vem sofrendo a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, assim como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Continuou: “Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço”.

“Da mesma forma” – prosseguiu -, “o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um só dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos permitir que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação”.

E foi em frente: “Antes da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização dos grandes museus do mundo. O Louvre, por exemplo, não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário, ou de um país”.

Disse mais: “Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser também internacionalizada. Pelo menos, Manhattan. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Brasília, Rio de Janeiro, Recife, cada cidade com sua beleza específica e sua história no mundo”.

Mais ainda: “Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil”.

E arrematou: “Alguns dos candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo  tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças, tratando-as, todas elas, não importa o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo todo. Ainda mais do que a Amazônia. Aí, elas deixarão de trabalhar quando deveriam estudar, de morrer quando deveriam viver. Como humanista, aceito a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa”.

Assim é Cristovam Buarque, um político que pouca atenção tem recebido da imprensa, que não dá causa a manchetes, que não posa de salvador da pátria nem de falso guardião da ética e da moral nacionais, mas vai fazendo o seu trabalho na solidão de Brasília e do Congresso Nacional. E quando provocado, sabe reagir na medida exata. E por isso merece o nosso respeito.

Fonte: http://jornale.com.br/zebeto/


Cadastre-se

Cadastrar

Redes Sociais