Recebemos de um colaborador do blog a seguinte mensagem que abre espaço, a quem interessar, para o debate:

Definitivamente, a história do jornalismo araucariano não seria a mesma sem a revelação de algumas observações e bastidores que cercam a entrevista do delegado Newton Tadeu Rocha, publicada na última edição dominical do jornal Gazeta do Povo (que na verdade começa a circular às 14h de sábado!).

“É preciso modernizar a Polícia”, diz a manchete, reproduzindo frase aspeada do entrevistado. Ninguém discorda. Antes, é bom discutir – e conhecer – os métodos e medidas que se pretende usar para a tal modernização. Por exemplo, o método Gazeta, que há poucos dias patrocinou uma série de reportagens (?!) intitulada “Polícia fora da lei”, apontando supostas irregularidades no comportamento de policiais civis e militares.

Uma delas envolveu diretamente o delegado Newton Tadeu Rocha, “flagrado” de bermuda na praia, saindo de viatura policial descaracterizada. Isso aconteceu no dia 10 de março, segundo a denúncia. Pois bem, na entrevista de domingo, o próprio jornal admite que o delegado estava a serviço, e comprova a afirmação publicando nova foto, dos arquivos da polícia, com o delegado entregando carteiras de identidade a moradores de Guaraqueçaba, usando os mesmos trajes da denúncia – bermuda, camiseta e chinelos. Estaria ele mal-ajambrado para o cumprimento oficial da missão de entregar documentos, também oficiais, a moradores do litoral?

O fato é que a entrevista também não tem “perguntador credenciado”, porque não há nenhum repórter ou editor que se tenha disposto a assinar a dita cuja. Talvez porque estejam todos envergonhados do que fizeram (antes ou depois?). Talvez porque tenha baixado na direção o espírito do doutor Francisco, sempre cioso na defesa dos interesses maiores e permanentes da Gazeta do Povo. Talvez.

Uma explicação plausível pode ser a afirmação da jornalista e professora Elza Oliveira Filha, da Universidade Positivo, na reportagem – da mesma Gazeta – sobre os 40 anos do Watergate. Diz ela: “Precisamos mostrar a necessidade do aprofundamento na investigação jornalística. Temos muitas reportagens de denúncia hoje, mas poucas matérias investigativas”. Essa é a verdade. Odorico Paraguaçu, com seu poder de síntese calcado na realidade, diria que o jornalismo araucariano, sobretudo o que se refere ao noticiário recente, sofre de “denuncismo de cagueta”.

Mestre Pasquale Cipro Neto ensina que “alcaguete, alcagueta, caguete e cagueta” formam uma única espécie, que no caso da série “Polícia fora da lei” atuou pelas mãos de policiais que “investigaram” policiais, despejando o resultado nas páginas do jornal. Nem sempre, como se vê agora, com fundamentos.

Em vez de investigar, a Gazeta preferiu denunciar. E agora se vê pressionada a reparar os estragos. Mas a Gazeta se supera. Em outra página, a entrevista do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, a anunciar que o governo federal estuda baixar os preços dos smartphones, mereceu o crédito ao repórter. Mais uma pista que complica a explicação para a omissão no caso do delegado.

Enfim, parecem insondáveis os mistérios que cercam o jornalismo araucariano. Mas todos concordam que é preciso “modernizar a Polícia”.

http://jornale.com.br/zebeto/2012/06/11/denuncismo-e-caguetagem/#comments

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.