Caros amigos Delegados de Polícia:

 

Não teremos dias fáceis. Sei que muitos não compreendem algumas ações que adotamos, mas estas são necessárias para os enfrentamentos de temas nacionais. Não basta agir apenas em nosso “quintal”, devemos estar atentos a todos os ataques à nossa Instituição e nossa carreira.

Durante as ferrenhas discussões e debates sobre a PEC 37, outras instituições usando as manifestações de rua começaram um discurso raso de combate à corrupção, atingindo a imagem das Polícias Judiciárias e dos Delegados de Polícia, levando a sociedade a desacreditar da Polícia Investigativa, o que certamente fortaleceu ainda mais o crime organizado.

Quando alertei em Brasília que os Delegados de Polícia deveriam lutar para rever a forma de repasse aos outros Poderes e Instituições, fui duramente criticado com a alegação de que devemos manter “bom relacionamento” e que estas Instituições são detentoras de autonomia financeira.

No Rio de Janeiro e outros Estados, alguns Delegados de Polícia em breve estarão pagando suas contas com o cartão do “bom relacionamento”. A autonomia financeira não pode ser interpretada como direito à promoção de farra com dinheiro público.

Não adianta esperar que uma pessoa que ocupe cargo temporário tenha coragem de se indispor com autoridades públicas, que ocupam cargos vitalícios. O enfrentamento aos abusos com dinheiro público, notadamente os praticados sob o manto da autonomia financeira, deve ser combatido por todos os servidores públicos de carreira. Até hoje não vi um único servidor quitando uma conta com a moeda do “bom relacionamento” com o Ministério Público ou outro Poder.

Combater a imoralidade e os abusos com dinheiro público não é faltar com o respeito, é obrigação de todo Delegado de Policia ou Servidor, que tem a obrigação de defender e proteger a sociedade. Se não o faz em prol da sociedade, pelo menos que tenha o mínimo de coragem para agir em prol do seu sustento e o de sua família.

Chegamos ao limite. A sociedade não suporta mais ser extorquida por autoridades que, exercendo uma função pública, desejam viver como autênticos milionários. O serviço público não é lugar para quem alimenta o sonho de enriquecer indefinidamente.

Enquanto nossos Policiais recebem diárias ínfimas, trabalham em escalas extenuantes sem nenhum retorno financeiro, Delegados acumulam unidades policiais sem nenhuma indenização correspondente, enquanto usamos coletes balísticos inadequados e viaturas em péssimo estado e sem nenhum grau de blindagem, assistimos outros poderes concederem aos seus membros os mais vergonhosos auxílios e verbas retroativas, que somaram mais de R$ 350.000,00 em um único mês e para um único “deus”.

Nenhum “bom relacionamento” deve incluir no pacote os abusos com verbas públicas. O que vemos são verdadeiros atos de corrupção jurídica coletiva, escondidas sob o manto da autonomia financeira.

Jamais permanecerei calado assistindo as mazelas e atos de corrupção generalizada, correndo o risco de ver em breve nossos servidores ficando sem seus parcos salários, como já está acontecendo em outros Estados.

Recentemente tomei conhecimento de condenação (cabe recurso) por danos morais por elencar todos os indícios que constam no inquérito que apurou a morte de João Marcos de Almeida e Silva, na cidade de Londrina, e por criticar veementemente a pessoa envolvida, o Sr. Leonir Batisti, que por ser Procurador de Justiça detém foro “mega” privilegiado. Uma aberração sem precedentes.

Antes do lançamento do Livro Operação Sepulcros Caiados I – Desvendando a “face oculta” do Ministério Público Brasileiro, recebi emissários que me avisaram que “tomariam” todo o meu patrimônio. Informo que não terão muito trabalho, pois trata-se de um terreno em Paranacity e um Honda Fit 2010. Tenho também uma pequena casa em Londrina, tão pequena que uma única parcela de “auxilio moradia” seria suficiente para pagar dez meses de aluguel e o salário de janeiro de alguns Procuradores de Justiça seria suficiente para pagar a casa duas vezes ou mais.

Temos que estar dispostos a lutar, pois o “bom relacionamento” não pagará nossas contas. Estamos sacrificando os nossos direitos para que o Estado possa sustentar a farra em outros Poderes e Instituições. Temos que dar um basta.

 

Claudio MARQUES Rolin e Silva

Delegado de Polícia e Presidente do SIDEPOL/PR.